História Judaica de Paris: Do Período Medieval à Comunidade Moderna

A história judaica de Paris faz parte da história da cidade. Ela é moldada por séculos de diversidade, e seu patrimônio judaico é um dos capítulos mais fascinantes de sua trajetória. Rastrear a presença judaica em Paris revela uma história de resiliência, tradição e renovação que continua a enriquecer a cidade hoje. Seja você apaixonado por história, gastronomia, arquitetura ou cultura, explorar o Paris judaico oferece uma perspectiva única e gratificante.

Uma Breve Visão Geral da História Judaica de Paris e da França

A história dos judeus na França, ou no território que corresponde a ela hoje, parece remontar ao século I e se estende até os dias atuais, tornando-a uma das presenças judaicas mais antigas da Europa Ocidental. Chegando à Gália pouco depois de sua conquista por Roma, os judeus se estabeleceram lá sob os merovíngios e desfrutaram de um período de prosperidade sob as famílias reais carolíngias.

As raízes da comunidade judaica em Paris remontam ao início da Idade Média. Os primeiros registros de colonos judeus datam do século VI, quando judeus chegaram principalmente como mercadores e estudiosos. Ao longo dos séculos, a comunidade enfrentou tanto períodos de prosperidade quanto perseguições severas—expulsões, conversões forçadas e restrições—mas a vida judaica nunca desapareceu completamente. Em vez disso, ela se adaptou, integrando novas tradições e revivendo-se com cada nova onda de chegadas.

No século XIX, Paris tornou-se um refúgio para migrantes judeus, especialmente judeus ashkenazes fugindo de tumultos na Europa Oriental e judeus sefarditas do Norte da África. A população judaica da cidade tornou-se mais diversa, a vida na comunidade tornou-se ainda mais vibrante e a cultura judaica tornou-se um fio importante no tecido parisiense.

O Período Medieval: Judeus e incerteza política

Durante a Idade Média, os judeus em Paris frequentemente eram obrigados a viver em áreas específicas, como partes da Île de la Cité. Apesar dessas restrições, a comunidade desempenhou um papel importante como estudiosos, artesãos e comerciantes. Paris medieval viu a vida intelectual judaica florescer, mas também testemunhou episódios brutais — como a expulsão dos judeus da França em 1394 — que afetaram profundamente o trajeto da comunidade.

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Memorial judaico da época medieval (Paris)

Expulsão e recall por Filipe Augusto: um período triste na história judaica

No final do século XII, o rei Filipe Augusto, influenciado pela hostilidade cristã aos judeus e pelo crescente papel econômico deles, decidiu, em 1182, expulsá-los do domínio real, confiscar seus bens e destruir ou converter suas sinagogas. Essa política de expulsão e espoliação, motivada por razões religiosas e econômicas, levou os judeus ao exílio em regiões vizinhas (Champanha, Borgonha, Provença).

No entanto, em 1198, Filipe Augusto os convocou por razões econômicas: sua atividade de empréstimo foi considerada benéfica para o reino e permitiu a cobrança de um imposto. Eles então se tornaram servos da Coroa, dependentes exclusivamente do rei, sem proteção da Igreja.

Apesar de seu retorno, os judeus permaneceram marginalizados, vivendo no distrito de Petit-Châtelet em Paris, onde estavam localizadas sinagogas, escolas e cemitérios. No entanto, a partir de 1205, a hostilidade da Igreja se intensificou, com o Papa Inocêncio III se opondo à sua proteção e até querendo cancelar as dívidas que lhes eram devidas, o que o rei recusou.

Sob Luís VIII e São Luís – Um período de relativa tranquilidade na História Judaica

Sob Luís VIII (1223-1226), a influência da Igreja se fortaleceu: ele proibiu os judeus de cobrar juros sobre empréstimos e ordenou aos senhores que pagassem o capital em três anos.

São Luís (Luís IX, 1226-1270), um homem muito religioso, continuou essa política atacando os empréstimos com juros e o judaísmo. Ele impôs restrições às atividades financeiras judaicas: em 1230, obrigou vários senhores a proibir empréstimos judaicos, embora a proibição de 1223 fosse mal aplicada. Em 1234, foi mais longe, cancelando um terço de todas as dívidas devidas aos judeus, obrigando aqueles que já as haviam pago a fazê-lo novamente, e proibindo a prisão de cristãos ou a venda de suas propriedades para quitar essas dívidas.

Essas medidas refletem um fortalecimento das restrições religiosas, mantendo certa preocupação com os interesses reais.

Durante o reinado de Filipe, o Ousado (1270-1285) e a história judaica de Paris

Durante o reinado de Filipe, o Ousado (final do século XIII), a discriminação contra os judeus continuou e se intensificou, notadamente por meio de ordens que limitavam sua presença, como em Paris, em 1273, quando restou apenas um cemitério judeu.

No cenário político, dois eventos importantes ocorreram:

Foi também nesse período que os judeus foram submetidos à Inquisição, especialmente a partir de 1267, quando o Papa Clemente IV considerou hereges os judeus que se converteram e depois retornaram ao judaísmo. Em 1278, um ato de proselitismo em Toulouse levou ao rabi Isaac Malès ser condenado à fogueira, marcando o início da repressão religiosa contra a comunidade judaica.

A História Judaica de Paris sob Filipe, o Belo (1285-1314): perseguições, espoliações e expulsões

Filipe, o Belo (reinado 1285-1314), é considerado o rei mais duro da França para lidar com os judeus. Embora reconhecesse sua utilidade financeira e os protegesse por um tempo para lucrar com eles, impôs progressivamente pesados impostos (1292, 1295, 1299, 1303), confiscou seus bens e limitou seu direito de residência. Em particular, explorou a comunidade judaica na Champanha, região administrada por sua esposa, Joana de Navarra.

Apesar de alguma proteção temporária da Igreja, o antissemitismo religioso ganhou força: em 1288, treze judeus foram queimados em Troyes pela Inquisição, e em 1290, o milagre das Billettes desencadeou uma nova onda de perseguição.

Em 1306, diante de uma crise financeira, o rei organizou uma expulsão em massa dos judeus: prisões, confisco de bens, proibição de cobrança de dívidas e o exílio forçado de mais de 100.000 pessoas em condições dramáticas. O bairro judeu de Rouen foi destruído e substituído pelo atual Palais de Justice.

Este exílio marcou uma virada decisiva, equivalente ao desaparecimento do judaísmo medieval francês. Embora os judeus tenham sido chamados de volta em 1315, a expulsão permaneceu uma tragédia humana e econômica, comparada pelo historiador Siméon Luce à revogação do Edito de Nantes. Muitas famílias judias exiladas mantêm a memória de suas origens francesas em seus nomes (Tsarfati, Narboni, Bedersi).

Da revogação em 1315 por Luís X, o Quente, à expulsão final em 1394

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Em 1315, o rei Luís X, o Quente, autorizou o retorno dos judeus à França, mas apenas por doze anos. Essa decisão foi uma resposta à pressão popular e aos maus resultados da reforma da servidão. Luís X tentou justificar a revogação invocando São Luís e o Papa, mas poucos judeus retornaram. Os que o fizeram foram taxados sobre suas dívidas, arrecadando 122.500 livres para o tesouro real.

Apesar dessa tolerância temporária, os judeus logo enfrentaram novas perseguições. Em 1320, os pastoureaux massacraram judeus no sudoeste da França. Uma nova expulsão foi ordenada em 1322, sob a alegação de um suposto complô entre judeus, mouros e leprosos para envenenar poços. Em 1326, o Concílio de Avignon impôs um código de vestimenta aos judeus, estigmatizando-os ainda mais.

A Peste Negra (1347-1349) intensificou a violência. Acusados de envenenar fontes de água, os judeus foram massacrados, notadamente em Estrasburgo e Colmar. Na Alsácia, sua comunidade tornou-se essencialmente rural nos séculos seguintes.

Em 1356, o Delfim Carlos tentou financiar o resgate de seu pai reautorizando temporariamente o assentamento judeu em troca de impostos. Mas poucos judeus aceitaram, apesar das condições favoráveis. O rei João II, mais hostil, impôs novamente a rouelle.

Durante o reinado de Carlos V (1364-1380), os judeus foram protegidos, mas seu sucessor, Carlos VI, expulsou-os em 1394, acusando-os de causar fome.

Na época, a comunidade judaica francesa contava entre 50.000 e 100.000 pessoas. Poucos vestígios permanecem, exceto nomes de ruas, mikvehs e estelas. Apesar disso, o legado intelectual da comunidade, graças em particular a Rachi e aos médicos judeus, permanece significativo. A Idade Média também lançou as bases do antijudaísmo cristão, que a Igreja só começou a questionar no século XX.

História judaica de Paris e vida social na Idade Média

Até o século XIII, os judeus estavam bem integrados na França, sem sinais distintivos de vestimenta, exceto na Alsácia, onde usavam “papillottes” e chapéus pontudos. Falavam a língua local e adotavam nomes bíblicos, às vezes adicionando o nome de sua cidade após as expulsões do século XII.

Desde o início, os judeus viviam em bairros específicos para facilitar sua vida religiosa e social, mas isso se tornou uma obrigação, como em Paris em 1294. Eles tinham várias sinagogas em cada cidade e escolas, especialmente no sul da França, com dinastias de estudiosos como Rachi.

No início da Idade Média, exerciam uma variedade de profissões sem restrições, mas a partir do século XII, as limitações os confinaram principalmente ao comércio, ao crédito e à medicina. Em 1415, uma bula papal restringiu ainda mais suas liberdades, impondo uma única sinagoga por cidade e sermões obrigatórios contra suas crenças.

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Principais cidades com grande população judaica

O crédito tornou-se uma atividade importante, já que o empréstimo com juros era proibido aos cristãos. Alguns judeus, como Héliot de Vesoul, combinavam comércio e empréstimos.

Muitos judeus praticavam a medicina, especialmente no sul da França, tratando tanto judeus quanto cristãos, apesar das restrições e da remuneração menor imposta pelos concílios de Avignon no século XIV.

História Judaica de Paris de 1394 à Revolução Francesa

Após 1394, os judeus foram oficialmente expulsos do reino da França, com exceção daqueles no recentemente anexado Dauphiné. Fora do reino, comunidades judaicas continuaram a existir na atual França, notavelmente na Alsácia, Lorena, Saboia, Provença, Comtat Venaissin e Franche-Comté, que também serviram como refúgio temporário. Esses grupos, governados por leis diferentes, evoluíram separadamente por cerca de quatro séculos antes da Revolução Francesa.

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Judeus estudando o Talmude

Por exemplo, em 1481, a Provença tornou-se parte do domínio real, e em 1501, Luís XII ordenou a expulsão dos judeus após distúrbios atribuídos a eles. Muitos preferiram se converter ao cristianismo, mas continuaram discriminados por quase três séculos. Avignon e o Comtat Venaissin, sob controle papal, tornaram-se um refúgio próximo para os judeus expulsos da Provença. A partir do final do século XVI, eles foram confinados a quatro bairros guardados, mas desfrutaram de relativa liberdade no Principado de Orange até 1732. No século XVIII, sua situação melhorou, permitindo-lhes construir belas sinagogas, notavelmente em Carpentras, a mais antiga ainda em uso na França.

História Judaica durante a Revolução na História Judaica de Paris

Na época da Revolução Francesa, cerca de 40.000 judeus viviam na França, principalmente na Alsácia, onde sofriam com a pobreza, impostos e discriminação social, não apenas por seu papel no agiotagem. Em outras regiões, como a Lorena, Bordéus e Avignon, sua situação gradualmente melhorou. Influenciados pelo Iluminismo e pensadores como Mirabeau e Abbé Grégoire, a opinião pública evoluiu em direção à tolerância e à emancipação dos judeus.

Em 1787, um édito concedeu status civil aos não católicos, mas a resistência persistiu. Os judeus participaram dos Estados Gerais e apresentaram cadernos de queixas exigindo igualdade. Sua emancipação foi debatida em 1789-1791 por deputados progressistas, culminando no reconhecimento pleno de seus direitos civis em novembro de 1791.

No entanto, durante o Terror, o judaísmo foi novamente perseguido: os judeus sofreram pesados impostos, discriminação e saques de sinagogas, refletindo tensões persistentes apesar da emancipação oficial.

O Império Napoleônico na História Judaica

Durante o Consulado e o Império, Napoleão Bonaparte, que pouco sabia sobre os judeus, herdou uma situação marcada pela pobreza das comunidades judaicas, especialmente na Alsácia e Lorena, e por tensões ligadas às suas atividades comerciais. Em 1806, ele convocou uma "Assembleia de Notáveis Judeus" para responder a questões sobre seu status, seguida em 1807 por um Grande Sinédrio, que validou suas respostas.

Em 1808, Napoleão organizou oficialmente o culto israelita ao criar o Consistório Central e os consistórios regionais, centralizando assim a administração judaica, o que favoreceu a unidade, mas limitou certas tendências religiosas internas.

No entanto, no mesmo dia, um "decreto infame" restabeleceu a discriminação: restrições ao crédito, patentes anuais obrigatórias, alistamento militar rigoroso e proibição de imigração judaica para a Alsácia, exceto em certas regiões isentas. Esse decreto empobreceu muito os judeus e gerou grande comoção.

Finalmente, em 1808, um decreto obrigou os judeus a adotar um sobrenome, regularizando assim seu estado civil. Após a queda de Napoleão, as leis emancipatórias permaneceram em vigor na França, ao contrário de outros países europeus, onde os judeus frequentemente enfrentavam condições mais duras.

Os séculos XIX e XX, chaves para a história judaica de Paris

Durante a Restauração e a Monarquia de Julho – Status quo e conversões

Durante a Restauração, o status dos judeus permaneceu estável, e em 1818, Luís XVIII não renovou o "decreto infame" de 1808, apesar das protestos da Alsácia. A única medida discriminatória que restou foi o juramento judaico, que obrigava testemunhas judias a prestar um juramento especial na sinagoga. Em 1839, o rabino Lazare Isidor contestou esse juramento com o apoio de Adolphe Crémieux, que obteve sua abolição em 1846.

Durante o reinado de Luís Filipe, um avanço significativo ocorreu com a lei de 1831, que proporcionou financiamento estatal para os ministros da fé israelita, estabelecendo a igualdade entre as religiões católica, protestante e judaica. Esse reconhecimento incentivou o desenvolvimento da comunidade judaica na França no século XIX.

Ao mesmo tempo, alguns judeus convertidos e grupos protestantes começaram a se converter ao cristianismo, principalmente ao catolicismo, com grande sucesso até o final do século XIX. Para combater essa apostasia, as autoridades judaicas fortaleceram sua organização, criaram capelanias e abriram um hospital israelita em Paris em 1852. Após 1870, as conversões diminuíram, principalmente entre voluntários adultos. Entre 1807 e 1914, cerca de 877 judeus parisienses se converteram ao catolicismo.

Judeus na Segunda República e no Segundo Império (1848-1871)

A Revolução Francesa marcou uma virada: os judeus receberam direitos civis e se tornaram cidadãos. Paris se tornou um importante centro cultural judeu, com novas sinagogas, escolas e centros sociais.

A ascensão social de muitas famílias judias levou a uma migração significativa de comunidades tradicionais para as grandes cidades, notadamente Estrasburgo, Marselha, Bordéus e, acima de tudo, Paris. Essa igualdade legal favoreceu tanto a assimilação rápida, com uma perda parcial das práticas religiosas, quanto o sucesso social de certos judeus em diversos campos, como bancos, política e artes. O termo “Israélites” substituiu “Juifs”.

Finalmente, a comunidade judaica francesa começou a se interessar pelos judeus menos favorecidos, em particular os das colônias francesas, como a Argélia, e do Mediterrâneo.

Da Terceira República à Primeira Guerra Mundial

Em 1866, havia cerca de 90.000 judeus na França, incluindo 36.000 na Alsácia. Após a perda da Alsácia-Lorena em 1871, a população judaica caiu para 49.000, mas aumentou rapidamente graças à emigração de judeus da Alsácia-Lorena para a França, atingindo 71.000 em 1897. Esse período viu um aumento da urbanização e uma maior integração social, mas também um declínio nas práticas religiosas.

No entanto, o final do século XIX assistiu a um ressurgimento do antissemitismo, agravado pelo crash da Union Générale e pela circulação de obras como La France juive, de Édouard Drumont. O caso Dreyfus (1894-1906), no qual um oficial judeu foi falsamente acusado de traição, revelou a intensidade do antissemitismo francês. Embora Dreyfus tenha sido reabilitado, o caso deixou uma profunda impressão na comunidade judaica, que se viu confrontada com um antissemitismo racial virulento.

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Capitão Dreyfus no Tribunal

Ao mesmo tempo, alguns judeus franceses apoiaram o sionismo, notadamente através das ações de Edmond de Rothschild, embora a maioria da comunidade permanecesse pouco envolvida. A partir dos anos 1880, grandes números de judeus do Leste Europeu, fugindo dos pogroms, se estabeleceram na França, especialmente no bairro do Marais, em Paris. Embora culturalmente dinâmicos, essa nova população criou tensões com os judeus franceses já estabelecidos.

Até 1914, a população judaica da França era estimada em 120.000, um terço dos quais eram estrangeiros, além de 30.000 judeus na Alsácia-Lorena e 70.000 na Argélia. Esse período viu um crescimento demográfico e cultural significativo, apesar de um clima social marcado pelo antissemitismo.

Primeira Guerra Mundial e a História Judaica

Durante a Primeira Guerra Mundial, os judeus da França e da Argélia estiveram fortemente envolvidos, com cerca de 6.500 mortos em combate pela França. A União Sagrada foi simbolizada pelo sacrifício do rabino Abraham Bloch, morto enquanto ajudava um soldado francês. A vitória francesa em 1918 levou à reintegração da Alsácia-Lorena, e cerca de 30.000 judeus recuperaram a nacionalidade francesa. No final da guerra, a população judaica da França era estimada em 150.000, sem incluir os judeus da Argélia.

O período entre guerras e a incerteza política

Entre as duas guerras mundiais, a comunidade judaica francesa viveu uma forte imigração ligada à Revolução Russa, ao antissemitismo na Europa Central e Oriental e à influência da Alliance israélite universelle. Em 1930, a população judaica da França atingiu cerca de 200.000, subindo para quase 300.000 na véspera da Segunda Guerra Mundial, sem contar os 110.000 judeus que viviam na Argélia. A maioria eram imigrantes, frequentemente trabalhadores ou artesãos, morando em bairros operários como o Marais, e muitas vezes distantes do judaísmo consistorial francês.

Apesar dessas tensões internas, os judeus da França brilharam na cultura, nas artes, na indústria (como André Citroën) e na política, com Léon Blum tornando-se presidente do Conselho em 1936, o que intensificou os ataques antissemitas.

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Léon Blum, socialista, primeiro-ministro durante o período da "Frente Popular"

O antissemitismo tornou-se mais radical nesse período, alimentado pela disseminação dos Protocolo dos Sábios de Sião, o surgimento das ligas de extrema direita, o caso Stavisky, a crise política de 1934 e a vitória da Frente Popular. A chegada de Blum ao poder desencadeou uma onda de ódio antissemita virulento, especialmente por parte de figuras como Xavier Vallat.

A violência e a retórica anti-semita aumentaram, com Céline publicando um panfleto virulento em 1937. O assassinato de um diplomata alemão por um judeu em 1938 foi usado como pretexto para a Noite dos Cristais na Alemanha, aumentando a preocupação na França.

A comunidade judaica francesa reagiu de formas contrastantes, oscilando entre cautela e chamados à resistência, sem ação coletiva forte diante do avanço do nazismo e do anti-semitismo.

A agitação da história judaica durante a Segunda Guerra Mundial

Do armistício à invasão da zona livre

No início da Segunda Guerra Mundial, os judeus franceses foram mobilizados como outros cidadãos, e muitos judeus estrangeiros também se alistaram. Após a derrota de 1940, muitos fugiram para a zona livre, especialmente os de Alsácia e Mosela. Embora o armistício de junho de 1940 não mencionasse os judeus, abriu caminho para uma estreita colaboração entre o regime de Vichy e os ocupantes alemães, facilitando a implementação de políticas anti-semitas.

No verão de 1940, começaram as espoliações de bens judeus, acompanhadas por censos em massa e leis de exclusão que proibiam os judeus de exercer muitas profissões. Judeus estrangeiros foram internados em campos como Gurs. O Comissariado-Geral para Assuntos Judeus supervisionou a confiscação de bens e a disseminação de propaganda antissemita. Em 1941, foi elaborado um arquivo completo de judeus, e a União Geral dos Israelitas da França (UGIF) foi criada para melhor controlar a comunidade, embora seus líderes também tenham sido deportados.

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Vagão usado para transportar judeus para campos de concentração

A partir de maio de 1942, judeus com mais de 6 anos foram obrigados a usar uma estrela amarela. As prisões multiplicaram-se, culminando na Rafle du Vel' d'Hiv em julho de 1942, que resultou na prisão de 13.000 judeus. As autoridades francesas participaram ativamente da perseguição, prendendo e entregando judeus estrangeiros e franceses aos nazistas. O campo de Drancy tornou-se a principal plataforma para deportações para campos de extermínio na Alemanha e na Polônia. Mesmo a zona livre foi afetada a partir de agosto de 1942, quando as prisões e deportações se intensificaram.

Da invasão da Zona Livre à rendição da Alemanha em 8 de maio de 1945 – a sobrevivência judaica na França durante a Segunda Guerra Mundial

A partir de novembro de 1942, a Alemanha ocupou quase toda a França, exceto a zona italiana, onde os judeus foram temporariamente protegidos até a chegada dos alemães em setembro de 1943. A caçada intensificou-se, liderada pelos nazistas com a ajuda ativa da Milícia Francesa, e as deportações do campo de Drancy continuaram até julho de 1944.

Na Argélia, os direitos civis dos judeus só foram restabelecidos em outubro de 1943. Na França continental, redes clandestinas como a SERE, que se tornou OPEJ, abrigaram crianças judias em famílias não judias ou em instituições. Apesar da perseguição, cerca de 75% dos judeus na França sobreviveram, uma taxa relativamente alta em comparação com outros países. No entanto, mais de 74.000 foram deportados, dos quais apenas 3% retornaram.

Para escapar da prisão, muitos judeus se esconderam, mudaram de identidade, obtiveram documentos falsos e encontraram refúgio no campo. As leis antijudaicas limitaram seu acesso ao trabalho e à propriedade, forçando muitos a se esconder. Milhares de crianças judias foram salvas, muitas vezes ao custo de perder sua identidade.

Diante da perseguição, a comunidade judaica se organizou. Associações ofereceram ajuda mútua, o Consistoire criou fundos de socorro e o CRIF foi fundado em 1943-44 para coordenar os esforços. Alguns judeus participaram ativamente da Resistência, integrando redes clandestinas, os maquis e o Exército Judeu.

Finalmente, para preservar a memória, o Centre de documentation juive contemporaine foi fundado em 1943. O heroísmo dos combatentes da resistência judaica, como os do MOI, é celebrado, notadamente pela Affiche Rouge e artistas como Louis Aragon.

A história judaica de 1945 até os dias atuais

Após a Segunda Guerra Mundial, a comunidade judaica francesa foi profundamente afetada: um quarto de seus membros desapareceu, muitas crianças ficaram órfãs e lugares de culto foram destruídos. Os judeus franceses originais sobreviveram melhor do que os judeus estrangeiros recém-chegados. Esse trauma levou a um enfraquecimento dos laços com a França, ilustrado pela emigração de jovens para Israel já em 1948.

A reconstrução rapidamente tomou forma, com a criação da FSJU em 1949, a reabilitação de sinagogas e um renascimento espiritual liderado por pensadores como Levinas, Neher e Ashkenazi. O caso Finaly marcou um ponto de virada nas relações judeu-cristãs.

Entre 1948 e 1975, a chegada de 235 mil judeus sefarditas do Norte da África transformou a comunidade, que agora era predominantemente sefardita. Instalando-se principalmente em Paris, Marselha e outras grandes cidades, esses novos imigrantes impulsionaram a prática religiosa, estimularam a vida comunitária e fortaleceram os laços com Israel, especialmente após a Guerra dos Seis Dias.

François Mitterrand’s política em relação aos judeus foi ambivalente. O primeiro presidente a visitar Israel e falar no Knesset, ele apoiou um Estado palestino. Durante seu mandato, os julgamentos de Barbie e Touvier ocorreram graças à família Klarsfeld. No entanto, seu passado em Vichy, notadamente sua amizade com René Bousquet, e seus escritos de juventude que relativizavam o antissemitismo provocaram forte controvérsia.

Judeus franceses e Israel

Até 1967, os judeus franceses demonstravam pouco interesse por Israel. A Guerra dos Seis Dias marcou uma virada: a comunidade apoiou massivamente Israel diante das ameaças, apesar do embargo francês. A vitória de Israel fortaleceu esse vínculo, embora a declaração crítica do general de Gaulle tenha gerado desconforto e partidas para Israel.

Na década de 1980, ataques antissemitas em Paris e conflitos árabe-israelenses (Líbano, Intifadas, Gaza) intensificaram as tensões, enquanto os processos de paz (Camp David, Oslo) às vezes geraram esperanças. O ressurgimento do antissemitismo, especialmente em resposta aos discursos de Ahmadinejad, reforçou o apoio a Israel.

Com o tempo, a comunidade judaica francesa tornou-se cada vez mais dividida: alguns criticaram as políticas israelenses, outros as apoiaram firmemente. As relações com as instituições israelenses são marcadas por períodos alternados de diálogo e tensão, especialmente em torno das resoluções da Unesco sobre Jerusalém.

Até 2023, o apoio a Israel permanece majoritário, ainda que com cautela. A controversa reforma judicial israelense em 2023, no entanto, provoca críticas abertas na comunidade judaica francesa, que exige sua suspensão.

Judeus na França hoje

Desde os anos 1990, a maioria do eleitorado judeu francês inclinou-se para a direita, especialmente após o reconhecimento, por Jacques Chirac, em 1995, da responsabilidade do Estado francês pelo Holocausto, um gesto bem recebido pela comunidade. Essa apaziguamento é refletido em eventos simbólicos como o bicentenário do Consistoire em 2008 e a visita de Nicolas Sarkozy a Israel.

No entanto, a comunidade enfrenta um aumento do antissemitismo, muitas vezes ligado ao antissionismo ou às tensões no Oriente Médio. Atos violentos como o caso Ilan Halimi (2006), o massacre de Toulouse (2012) e o ataque ao Hyper Cacher (2015) deixaram marcas, gerando um crescente sentimento de insegurança e um aumento de partidas para Israel (aliá), especialmente marcado na década de 2010.

A comunidade judaica também enfrenta desafios internos: o caso Gilles Bernheim (2013), debates sobre assimilação e casamentos mistos, concentração urbana e declínio demográfico geral.

Politicamente, o CRIF defende o voto em candidatos moderados, rejeitando os extremos, em particular a extrema direita de Marine Le Pen e a extrema esquerda. Diante de profanações de cemitérios e violência, a Assembleia Nacional adota, em 2019, a definição de antissemitismo proposta pelo IHRA.

Por fim, os assassinatos de Sarah Halimi (2017) e Mireille Knoll (2018), além do impacto da pandemia de COVID-19, reforçam um sentimento de vulnerabilidade dentro da comunidade judaica francesa.

O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023

O ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 abalou profundamente a comunidade judaica francesa, que registra um aumento acentuado de atos antissemitas na França. CRIF Presidente Yonathan Arfi estabelece uma ligação direta entre este conflito e o aumento da violência antijudaica. Apesar das condenações oficiais, certos discursos políticos, notadamente de Jean-Luc Mélenchon e La France insoumise, estão agravando o mal-estar.

Em um mês, mais de 1.000 atos antissemitas foram registrados. A comunidade lamenta a falta de solidariedade nacional e o enfraquecimento da confiança em Israel como refúgio. Uma grande manifestação contra o antissemitismo reúne 180.000 pessoas em 12 de novembro de 2023, mas surgem tensões sobre a participação do Rassemblement National.

Nas eleições europeias de junho de 2024, Mélenchon é visto por muitos judeus como contribuindo para o antissemitismo, enquanto Marine Le Pen parece ter suavizado sua imagem, acentuando a sensação de isolamento. Um estupro antissemita em junho de 2024 e declarações polêmicas de Emmanuel Macron reforçam essa inquietação.

O ataque a um rabino em Orléans em março de 2025 confirma a persistência da violência antissemita na França.

Escolas judaicas na França

As escolas judaicas na França, que combinam educação secular e religiosa, permaneceram marginais até a Segunda Guerra Mundial, já que os judeus privilegiavam a integração republicana. Uma exceção foi a École normale israélite orientale (ENIO), fundada em 1868.

O desenvolvimento das escolas judaicas acelerou-se após 1945, especialmente nos anos 1970, com a chegada de judeus do Norte da África e o aumento do antissemitismo. Em 2000, cerca de 30.000 alunos frequentavam essas escolas, principalmente em estabelecimentos com contrato com o Estado.

As principais redes são a Alliance israélite universelle, ORT, Ozar Hatorah, escolas ortodoxas e independentes. O cenário educacional também inclui várias yechivot e o Séminaire israélite de France.

Tendências do judaísmo na França

As correntes do judaísmo na França são muito diversas: Harédis (ultra-ortodoxos), Loubavitch (dinâmicos e institucionais), ortodoxos, Consistoriaux (maioritários e próximos da ortodoxia), Massorti (movimento conservador), liberais, e também judeus negros em busca de lugares específicos. Muitos judeus franceses praticam pouco ou nada, o que ilustra um alto grau de assimilação, com uma taxa elevada de casamentos mistos e ausência de frequentação de sinagogas.

Numerosas outras associações culturais e de caridade existem. Ainda mais numerosos são aqueles que praticam o judaísmo apenas ocasionalmente e não se reivindicam de nenhuma obediência particular. O Consistório de Paris, por exemplo, tem cerca de 30.000 membros, enquanto a população judaica da região parisiense é estimada em 300.000. Mesmo considerando os membros das comunidades ortodoxas ou liberais, isso ilustra um grau significativo de assimilação em uma parte considerável da comunidade, outro sintoma do qual são as taxas crescentes de casamentos inter-religiosos (40% entre os menores de 30 anos) e a não frequentação de sinagogas (49%).[434].

Institucionalmente, o Grande Rabino da França é o representante religioso oficial, enquanto o CRIF é o principal interlocutor político da comunidade, como demonstrado pelo jantar anual do CRIF, onde a República Francesa tem sido representada nos últimos anos pelo Primeiro-Ministro, e até mesmo pelo Presidente da República em 2008. Desde 2022, o CRIF é presidido por Yonathan Arfi. O Grande Rabinato passou por algumas mudanças recentes: Gilles Bernheim serviu de 2009 a 2013, seguido por Haïm Korsia, eleito em 2014. Em 2019, a associação Judaïsme en mouvement (JEM) foi criada para federar certas correntes liberais.

Conclusão

A história judaica de Paris é uma jornada de fé, adversidade, renascimento e celebração. Das ruas medievais sinuosas do Marais aos mercados movimentados e à solenidade do Memorial do Holocausto, o Paris judeu está vivo em seu povo, comida, arquitetura e tradições.

Descubra o Paris judeu, seja através de uma visita a um museu, de um tour por uma sinagoga ou saboreando um doce na Rue des Rosiers, e descubra uma cidade dentro da cidade — uma que reflete tanto as dificuldades quanto as conquistas de uma comunidade duradoura. Tire um tempo para caminhar por essas ruas, provar os sabores e deixar que as histórias do Paris judeu enriqueçam sua compreensão dessa cidade extraordinária.